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Alguns pingos em alguns is

Publicado em: 12-03-2017 | Por: bidueira | Em: DIREITO DE PROPRIEDADE, Fam??lia, Pol??tica Internacional, Uni??o Europ??ia

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Ag??ncia Boa Imprensa

Alguns pingos em alguns is

P??ricles Capanema

De alguns anos a esta parte, movimentos e partidos pol??ticos de fundo nacionalista v??m ganhando for??a em pa??ses importantes. Assistimos a enorme reviravolta no esp??rito p??blico, pode determinar rumo diferente ao que o mundo vem trilhando, aos trancos e barrancos, desde o fim da 2?? Guerra Mundial. Aonde chegaremos?

A corrente n??o ?? una, apresenta caracter??sticas d??spares, e n??o apenas em aspectos acidentais, mas nos nacionalismos se percebe um fundo comum, sobre o qual, de forma sucinta, tratarei. Nacionalismo vem de na????o. E na????o, de natio, natus, etimologicamente, ?? o conjunto dos que nasceram em determinado territ??rio.

Na????o foi palavra inicialmente utilizada pelos estudantes das universidades medievais, em especial a de Paris. Ali eles se organizavam em grupos, falavam a l??ngua materna entre si, eram regidos pelas leis dos pr??prios pa??ses (ou regi??es). Existiu a na????o da Alemanha, a na????o da Inglaterra, a na????o normanda. Outras ainda.

A palavra n??o designou apenas agrupa????es de estudantes. Por exemplo, em fins do s??culo 15, surgiu o acr??scimo na????o em realidade pol??tica de enorme import??ncia: Heiliges R??misches Reich deutscher Nation (Em tradu????o literal, santo imp??rio romano da na????o alem??; em portugu??s, o Sacro Imp??rio Romano Alem??o). O Sacro Imp??rio foi oficialmente extinto em 1806 por Napole??o. Importante notar, ali foram extintos direitos hist??ricos, autonomias multisseculares; essa organiza????o pol??tica de ra??zes medievais dificultava planos do Corso, centralizadores e autorit??rios.

Por que lembro fatos antigos? Para melhor compreendermos no presente o fen??meno nacionalismo. Quando a palavra na????o se difundiu a Era Moderna ainda n??o havia come??ado. No temperante ambiente da Cristandade, era comum, os homens viviam distantes do absolutismo, da centraliza????o e do autoritarismo unificador. E de del??rios de grandeza, pr??pria ou coletiva. O medieval, respirando ares de civiliza????o crist??, n??o desatinava atr??s da busca obsessiva da pr??pria grandeza, da de sua fam??lia, regi??o ou reino. Tinha um olhar temperante para as coisas temporais, condicionado ao ???vale de l??grimas???. E sua aten????o se fixava de imediato e preferentemente na fam??lia e na regi??o. O imperador do Sacro Imp??rio dispunha de poucos poderes diretos. Sem ser conhecido explicitamente, o princ??pio de subsidiariedade, hoje o pilar central da doutrina social cat??lica, embebia a sociedade. Mesmo em Paris, capital da Fran??a, a na????o alem?? dos estudantes dispunha de grande autonomia no governo pr??prio.

Com o avan??o do Estado Moderno, na????o foi ganhando significado mais denso. Passou a significar em geral comunidade est??vel de indiv??duos, historicamente determinada por origem, costumes, religi??o e l??ngua comuns. Da?? a defesa do territ??rio, fronteiras, l??ngua, cultura, ra??a, dentre outros. Tais elementos, ainda que importantes, de fato eram acidentais; o fundamental sempre foi o sentimento do v??nculo comum, a consci??ncia de pertencer a uma entidade com interesses pr??prios e necessidades peculiares. O Estado ?? sua forma pol??tica normal.

Surgiu o nacionalismo como o conhecemos agora, fruto t??pico dos Tempos Modernos. Medra bem nos miasmas do antropocentrismo potencializado com a Renascen??a. A na????o e at?? o Estado passaram a ser alucinados ideais de grandeza humana. N??o mais eram realidades ben??ficas, mas subsidi??rias ?? fam??lia, na procura da perfei????o humana em todos os n??veis. A nota jacobina, o Estado como o grande instrumento a conquistar para impor um suposto programa de salva????o nacional, sempre esteve muito presente.

Noto de passagem: ?? louv??vel defender a identidade nacional e lutar pela grandeza nacional, com base em doutrina razo??vel e conduta sensata, julgando o Estado instrumento ??til, necess??rio e importante para a pessoa e a fam??lia alcan??arem seus fins.

Volto ao fluxo principal: n??o foi assim com o nacionalismo em v??rias de suas vertentes importantes: pessoa, fam??lia, regi??o passaram a ser meras partes de um todo coletivo, de valor absoluto. A exacerba????o coletivista desemboca no totalitarismo, o que historicamente aconteceu em v??rias ocasi??es. ???Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado???, foi lema do fascismo italiano.

Citei Napole??o Bonaparte. Volto a ele, exemplo de nacionalismo, enorme influ??ncia. Chefe carism??tico, uniu a aspira????o da p??tria agigantada com os ideais da Revolu????o Francesa. Centralizador, ditatorial, advers??rio dos direitos hist??ricos de fam??lias, regi??es, corpora????es, agiu contra sociedades intermedi??rias de v??rias naturezas, colocadas entre a pessoa e o Estado. Procurou subjugar e utilizar a Igreja para seus objetivos de ordem e grandeza nacionais. A ele se aplicaria bem a express??o famosa, falsamente atribu??da a Lu??s 14: ???L?????tat, c???est moi???. Nas linhas gerais, o bonapartismo ??? regime republicano imperial, Estado nacional com Executivo forte e centralizado, populista, recurso frequente ao plebiscito ??? foi a tintura m??e dos nacionalismos.

Seus tra??os principais continuam at?? hoje. Um deles, ausente no bonapartismo, foi acrescentado em alguns nacionalismos: o antissemitismo. O antissemitismo pode ser visto como esp??cie do g??nero xenofobia, presen??a constante nos nacionalismos. O estrangeiro (ou o corpo estranho), eis o inimigo do coletivo nacional, sempre bom e vocacionado para a grandeza.

Bonaparte prometeu restaurar a ordem em frangalhos com as convuls??es sociais do per??odo, implantar a racionalidade e a efici??ncia no governo, eliminar os ???lados ruins??? da Revolu????o Francesa. Perseguiu os monarquistas, recusou o Rei, isolado em Londres, e a velha nobreza, dispersa pela Europa, tidos por corruptos e decadentes. Desprezava a cultura refinada e aristocr??tica do Antigo Regime. Autorit??rio, centralizador, populista, confiante no uso da for??a, arrastou atr??s de si grande parte da Fran??a at?? que suas derrotas o jogaram, exilado, em Santa Helena.

Historicamente, o nacionalismo atraiu simpatias de cat??licos, conservadores, tradicionalistas, de correntes favor??veis ?? livre iniciativa e ao empreendedorismo. Foi visto como advers??rio do internacionalismo socialista (inimigo da identidade nacional) e do igualitarismo revolucion??rio (inimigo das desigualdades de base natural). Era muitas vezes considerado baluarte na defesa da ordem amea??ada pela agress??o da desordem revolucion??ria. Milh??es de seus seguidores, gente de bem, colocaram na sombra os tra??os coletivistas, centralizadores e autorit??rios, a nega????o te??rica e pr??tica do princ??pio de subsidiariedade. Aderiram ao que lhes parecia a ??nica defesa eficaz contra a avalanche revolucion??ria que amea??ava levar de rold??o moral, institui????es vener??veis e civiliza????o.

Foi um falso dilema demolidor. Para milh??es, acarretou trag??dias das mais variadas naturezas. Podem voltar a acontecer. ?? momento de maturidade, exame, arg??cia, equil??brio, isen????o. Claro, n??o esgotei assuntos, ventilei-os; nem poderia ser diferente em artigo limitado por espa??o. Espero, contudo, ter fornecido material ??til para reflex??o. Em resumo, procurei cumprir a promessa: p??r alguns pingos em cima de alguns is.

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